quinta-feira, 1 de março de 2012

Intolerante Adorável


José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, faz jus à sua fama de diretor competente e inovador, realçando a qualidade de outros profissionais que ajudaram a transformar a Globo no que ela é hoje: líder absoluta de audiência no território nacional. Em um livro encantador, figuras como o lendário diretor Walter Clark, ex-aliado de Boni, são retratadas como pilares importantíssimos na construção do império de comunicação, deixando de lado as rixas pessoais que teriam levado à sua saída da Rede Globo em 1977. Aliás, gentileza é que não falta nas palavras do autor. Desde seus  braços direitos, como o diretor Daniel Filho;  Joe Wallach, o ex-representante do grupo americano Time-Life e então superintendente de Administração; Jose Ulisses Arce, superintendente de Comercialização; e Armando Nogueira, diretor de jornalismo. Além, é claro, de Roberto Marinho, mencionado sempre como "Dr. Roberto", o que dá um tom superior e quase de “mago” ao dono da empresa.

Quem espera pelas fofocas, se desencanta logo nas primeiras páginas, quando o próprio autor adverte que suas memórias são reflexões mais para a curiosidade sobre as empresas e pessoas com quem trabalhou do que a vida particular de figuras notórias da televisão brasileira. Isso, entretanto, não abala a estrutura de um livro muito bem escrito, rico em detalhes e fatos curiosos de um homem que deu enredo ao próprio destino, apostando em seu talento e ambição. Não é de se estranhar, que ele enfatize tanto um dos seus mantras: “Quem quer ser criativo, não pode ter medo de errar. Quem quer ser eficiente, não pode tolerar o erro.”

As quase quinhentas páginas do Livro do Boni são capítulo à parte para quem acompanhou o nascimento da televisão brasileira. Boni não poupa nuances a quem ele classifica de talentos indispensáveis para a consolidação da TV Globo como uma central de produção e não apenas transmissora de programas. Alguns deles, como Abelardo Barbosa, o Chacrinha, compartilha de passagens no limbo e no céu, por conta de seus caprichos excêntricos. Em um deles, em particular, Boni explica a quase tragédia quando Chacrinha, recém-contratado, havia criado um concurso do cão mais pulguento do brasil. O concurso, segundo o próprio apresentador, tinha um apelo de conquistar as classes mais baixas e popularizar o programa, algo que Chacrinha vinha fazendo com grande liberdade na TV Tupi. Acontece que, segundo Boni, o cachorro vencedor tinha aproximadamente sete mil pulgas (lamento, mas nem o autor explica como eles contaram as pulgas) e quase interditou os poucos estúdios da emissora, que ainda rodavam com recursos parcos de uma empresa que quase tinha chegado à falência em 1967.

Aliás, antes de se tonar um exemplo para as outras emissoras, a Rede Globo, amargou anos de aperto financeiro, quando mal tinha condições de pagar seus próprios artistas e funcionários. O salvador da pátria, novela que levaria anos ainda para ser produzida, foi Silvio Santos, que desembolsou os próprios recursos para ajudar a emissora que seria a pedra em seu sapato anos mais tarde.

O livro do Boni se desenrola com uma fluidez impressionante por essas e muitas outras histórias. O leitor fica preso a um texto leve narrado por um “intolerante adorável” que saiu da cidade de Osasco para se tornar um dos ícones da TV Brasileira.
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