sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Departamento de Falsificações

Departamento de Falsificações 

__ Alô, bom dia. É do departamento de falsificações?
__ Não, é da superintendência da Polícia Federal.
__ Opa, desculpa, é enga.
__ Não, não desliga não. Você queria comprar o que falsificado?
__ Nada! Não queria comprar nada.
__ Queria sim, ligou atrás de produtos falsificados.
__ ...
__ Perdeu a língua agora, tô com seu telefone aqui. Quer que eu mande 30 agentes aí conversar contigo pessoalmente?
__ Uma carteirinha de estudante.
__ Ah, carteirinha de estudante, molecão? Qual sua idade?
__ Trinta e cinco.
__ Trinta e cinco e querendo pagar meia no cinema ainda?
__ Show na verdade.
__ De quem?
__ Avenged Sevenfold.
__ Porra, que banda do caralho. Sheppard of Fire é uma paulada no córtex.
__ Você gosta, policial?
__ Adoro! Quanto o ingresso?
__ Seiscentos reais.
__ Seiscentos reais? É o Stones por acaso?
__ Pois é...
__ Então, falsificar documentos é crime federal com pena de 3 a cinco anos em regime fechado.
__ Hum.
__ Não curte ver pela TV?
__ Você se masturba?
__ Como?
__ Bate uma, descascar a banana, bater castanhola, descabelar o macaco. Sabe, punheta?
__ Prefiro foder.
__ Pois é, eu também prefiro me foder a ter que ver algo na TV. Vai me passar quem falsifica essa porra ou não?

Léo Carvalho - Fevereiro 2014

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

COMPLEXOS

O mundo é cheio de complexos, dúvidas, má informação e preconceito. As pessoas concebem opiniões com a mesma facilidade que comentam a novela das nove horas. Ninguém se safa: marido, esposa, filho, cunhado, primo, vizinho, cachorro, político, atriz, etc. Todo mundo reunido ali, dentro da cabeça de cada inquisidor, prestes a ser julgado. Alguns de maneira ácida, inapropriada, mal educada e muitas vezes cruel. Há quem diga e até defenda em teses enfadonhas de doutorado que quando você critica alguém é uma forma de você aliviar toda insegurança que sente sobre si. A filosofia do tudo o que nos irrita nos outros é aquilo que nos irrita em nós mesmos. Método eficaz para quando  ver um homossexual na rua e gritar “Viado!”, “Queima-rosca”, “Richarlison”, “Pelotense”.

As pessoas realmente sentem um alívio ao comentar a respeitos das outras. As mulheres então, que o digam. São quase socialites quando se vêem acurraladas pela amiga mais magra, mais linda, com um marido mais bonito. Falsas, porém simpáticas.

Na vida de Tabajara Carneiro isso não foi diferente. Ele saiu lá de Passo Fundo, de uma família média e tradicional, e tinha sempre dois desafios quando se apresentava: Onde fica Passo Fundo e Tabajara, TA-BA-JA-RA,  é sobrenome?  Dependendo do estado, gente mal informada tem tanto quanto periguete em baile funk. A vida pode ser bem cruel.

__ Obrigado por ter ligado para TIM, seu nome, por favor.

__ Tabajara.

__Taba o que?

__TABAJARA!

__TABAJARA?

__SIIMMM, TA-BA-JA-RA!!!

__Ok senhor, e o seu primeiro nome?

O cotidiano tinha dessas coisas e quando o Jovem encontrava alguém na mesma situação, se tornava amigo imediato. Veridiano e Adroaldo se tornaram seus amigos instantâneos. Falar com alguém que sofria da mesma síndrome do nome diferente ajudava a superar o inferno das piadas.

Tabajara acreditou em si. Botou fé no seu potencial e estudou. Se tornou médico respeitado, casou com alguém que era mais linda e mais jovem, se aventurou na política e conseguiu um status que sempre quis na infância. Assim, quando a vida parecia boa e perfeita, o Casseta & Planeta, numa triste demonstração de falta de criatividade humorística, inventa as “Organizações Tabajara”.

__Ei Dr. Tabajara, onde eu compro aquele “carro disfarceitor tabajara”?

__Dr, Tabajara, o senhor vai ficar milionário se patentear aquele “Personal Pintovision Tabajara”. Eu não vejo o meu há uma década.

Tabajara só se lamentava e por vezes ria das idéias esdrúxulas. Fazia parte da vida dele. Ele só queria ser alguém com um nome normal e trivial, Marcelo, Alfredo, Roberto, Eduardo. No desespero, confessou a um amigo:

__Gerson,  até Clóvis eu aceitava, cara.

__Clóvis, Taba? Não é meio afeminado.

__Mas até ser gay é ser menos questionado.

Perguntas sobre o nome incomodavam, mas não era o grande problema.  Explicar a origem sem expor mais questionamentos era quase uma missão impossível.

__ Meu nome vem do TUPI, que era uma tribo indígena. Significa senhor da aldeia.

__ Nossa Taba, nem índio você parece. Tá mais pra alemão.

__ Estou dizendo que o nome tem essa origem, não que eu seja descendente de índios. 

__ Hum, você parece com Hans.

__ E você parece com Bráulio.

Era difícil aturar. Aeroportos então provocavam calafrios. Perder o cartão de embarque ou ficar em lista de espera era um teste de nervos. “Minha querida, não precisa chamar meu nome no microfone, estou sentadinho bem ali, é só me chamar.”

A falta de um nome comum, gerou falta de auto-estima e falta de auto-estima gera falta de personalidade.

__ Berenice, vou mudar meu nome.

__ Como assim, Tabajara, vai mudar por quê?

__Cansei, horas. Casei das explicações, das chacotas, dos trocadilhos...

__ E que nome é apropriado pra você então.

__ Haroldo.

__Haroldo?

__ É horas, Haroldo. É um nome comum e ao mesmo tempo diferente.

__ Não gosto.

__Por que não?

__ Porque quando eu gritar com você não vai ter um impacto grande. Olha só, HAAAARROOOLLLLDDDDDDOOOOO. Parece que to chamando o mordomo para trazer o papel higiênico. Que tal Heródoto?

__ Parece nome de planta estranha?

__ Claudemir?

__ Operário.

__Estevan?

__ Político corrupto.

__ Davi?

__ Bíblico demais.

__ Eraldo, Antenor?

__ Psicopata e Bêbado.

__ Quer saber, Tabajara. Muda seu nome para Eulâmpio que eu não vou parar de te chamar de Tabajara mesmo.

__ Eulâmpio?

__ Pois é, é o nome do noivo da minha recepcionista.

__ Huuuummmmm.


Depois daquela noite Tabajara teve a epifania de que num mundo onde as maldições atingem as pessoas de diferentes modos, sejam elas através de nomes estranhos ou doenças contagiosas. Porém, ele se sentia um novo homem. Iria acordar cedo no outro dia e pedir cartões de visita novos decorados com dourado no seu primeiro nome. Uma placa maior e mais chamativa também seria confeccionada para porta de seu consultório: DR. TABAJARA CARNEIRO! A vida não era tão mal assim, afinal, depois de Eulâmpio, ele passou a se sentir a pessoa mais afortunada do mundo.

Léo Carvalho - Agosto 2013

terça-feira, 1 de outubro de 2013

E-SEX

Advogato entra na sala.

PrincesaKarente entra na sala.

PrincesaKarente diz: oi amor, que saudade!

Advogato diz: oi linda... no hotel já.

PrincesaKarente diz: Tá cansadinho?

Advogato diz: Sim, um pouquinho.

 PrincesaKarente diz: Amorrrrr. Quer brincar um pouquinho?

Advogato diz: opa!

PrincesaKarente diz: Ok, estou usando uma blusinha de seda bem sexy, com fechamento um pouco abaixo dos meus seios, onde escondo um wonderbra vinho, todo detalhado com formatos de azaleias e uma mini saia preta com uma fenda provocativa na perna esquerda. E vc?

Advogato diz: Eu estou com uma calça de moletom que usava para dormir na faculdade e uma camiseta branca do rock in rio 85. Tá um pouco suja, pois derrubei macarrão quase agora jantando.

PrincesaKarente diz: Nossa, que SEXY, Marco Túlio.

Advogato diz: sarcasmo???

PrincesaKarente diz: Um pouquinho. Bom, então vem garanhão, arranca minha roupa e me domina.

Advogato diz: Arranca? Vc nunca gostou de brutalidade. Se eu me lembro bem, uma vez vc foi bem específica dizendo para eu deixar de agir como um adolescente masturbador.

PrincesaKarente diz: Você era muito grosseiro, Marco Túlio.

Advogato diz: Eu não tinha prática, horas.

PrincesaKarente diz: A boneca inflável não era um treinamento pra vc?

Advogato diz: PELA ÚLTIMA VEZ: aquela boneca foi um presente de amigo da onça da empresa. Não era minha namorada.

PrincesaKarente diz: Então, pq vc chamava ela de Brenda?

Advogato diz:  Amor, esquece isso!

PrincesaKarente diz: Ok,então, estou com minha blusinha sexy, com minha saia cortada, com uma perna apoiada na cama, esperando você.

Advogato diz: Pera, que cheiro é esse?

PrincesaKarente diz: Estou usando a colônia que minha mãe me deu.

Advogato diz: Porra, você sabe que sou alérgico. Afe, acho que vou... AAAATTTCCCHHHIIIMMMM. Gata, acertei sua blusa.

PrincesaKarente diz: Tá, tudo bem, agora que você sujou, rasga logo. Vem, gatão.

Advogato diz: Ok, rasguei sua camisa de seda caríssima e deixei amostra seus seios fartos nesse sutiã azul.

PrincesaKarente diz: Vinho.

Advogato diz: É que está um pouco escuro aqui. Posso acender uma vela?

PrincesaKarente diz: Acende, mas não para.

Advogato diz: Tá, onde você guarda os fósforos?

PrincesaKarente diz:  No armário da cozinha, o de cima da geladeira.

Advogato diz: Hum, não acho!Você mudou alguma coisa aqui?

PrincesaKarente diz: NÃO, ACENDE A VELA NO FOGÃO LOGO.

Advogato diz: Ok, vou colocar perto na cabeceira para dar um clima gostoso.

PrincesaKarente diz: Ótimo, você rasgou minha blusa, estou deitada com meus seios apontando pra você e insinuando que você tire meu sutiã.

Advogato diz: Amor?

PrincesaKarente diz: O QUE É AGORA?

Advogato diz: Posso ir ao banheiro antes? Eu não consigo, sabe...

PrincesaKarente diz: VAI PELO AMOR DE DEUS, MARCO TÚLIO. Volta logo, ok.

Advogato diz: Rapidinho.

PrincesaKarente diz: Tá.

Advogato diz: Amor?

PrincesaKarente diz: Pronto, gato?

Advogato diz: Então, fui mijar meio excitado e errei um pouco a mira do jato e acertei o cesto de roupas para lavar.

PrincesaKarente diz: Que ótimo, MARCO TÚLIO. Deita aqui e esquece isso. Me domina que eu te quero agora.

Advogato diz: Ok, eu vou me deitando sobre você e vou beijando seu pescoço, mexo no seu cabelo...

PrincesaKarente diz: Ai gato, que delícia. To sentindo você animado já. Eu te quero, me possui.

Advogato diz: Você trocou os lençóis?

PrincesaKarente diz: PORRA MARCO TÚLIO, mês passado. Deixa isso pra lá. A gente está quase lá.

Advogato diz: Pois é, não gosto da cor. Esse pêssego é meio deprê, não.

PrincesaKarente diz: Amor, ajuda vai, tira minha saia e toma o que é seu.

Advogato diz: Ok, tô puxando sua saia. Delícia, suas pernas delineadas, lisinhas...

PrincesaKarente diz: Pra você, gato, beija elas.

Advogato diz: Poxa, não puxa a perna tão rápido. Você chutou o travesseiro e pegou na porra da vela.

PrincesaKarente diz: Hã?

Advogato diz: Viu só, começou a pegar fogo no quarto.

PrincesaKarente diz: Quer saber, tô colocando minha saia fendada, minha blusa rasgada e cuspida e indo embora, seu babaca.

Advogato diz: FOGO, CARALHO. FOGO... FOGO... Você tem extintor em casa?

PrincesaKarente diz: Vai à merda, Marco Túlio.

PrincesaKarente sai da sala.

Advogato diz: Amor?                

terça-feira, 31 de julho de 2012

Ivan Lessa, o filho da pátria


Texto publicado no jornal Ícone - edição de junho - o qual estou disponibilizando agora no blog.

“Três em cada quatro políticos não sabem que país é esse. O quarto acha que é a Suíça.” Com esse humor ácido ficou conhecido o jornalista, cronista e escritor Ivan Lessa, morto aos 77 anos no último dia 8 de junho, em Londres, onde estava em um auto-exílio desde 1978. Lessa era filho dos escritores Origenes e Elsie Lessa, nasceu em São Paulo e foi criado no Rio de Janeiro. Com Ziraldo, Millôr Fernandes, Tarso de Castro e Jaguar, fez parte do grupo que criou o jornal "O Pasquim", em 1969, durante o período mais ferrenho da ditadura militar.

No geral, Lessa era aquele tipo de brasileiro que não poupava esforços para criticar o Brasil por conta de seus infindáveis problemas, grande parte deles gerados pela nossa própria história de uma colonização predadora e ignorante. Para nós, meros espectadores da roubalheira e desorganização do país tupiniquim, as falcatruas dos nossos governantes causavam nauseante mal-estar no escritor que não digeria o pesadelo institucional do Brasil e escrevia três colunas por semana para a BBC Brasil.

Por conta disso, Lessa colecionava inimigos e “pseudopatriotas”, os quais consideravam hipocrisia do jornalista criticar o país a uma distância segura no conforto de Londres. Ledo Engano. Lessa foi, talvez, a figura mais importante ao lado de Millôr (também morto nesse ano) de uma classe intelectual tristemente pouco lembrada pelo povo brasileiro. Tinha seu perfil rabugento, mas nunca deixou de ser um filho da pátria (mas que naturalmente dependia dela para seu próprio trabalho).

O escritor tinha plena adoração pelo Brasil, em especial pelo Rio, onde passou a maior parte da sua infância, no entanto, remetia esses elogios a um passado dourado e elegante da cidade que foi jogada às traças, segundo ele mesmo dizia. Em 2006, depois de 28 anos sem dar as caras no Brasil, Ivan foi convidado pela revista Piauí para fazer um retrato da cidade. “Copacabana, Ipanema, Leblon, Centro, zonas Leste e Oeste, o que quiserem. Curtam o pôr-do-sol, recortem o Corcovado e os Dois Irmãos e botem à venda no eBay. Virá gente. Muita gente. Mas uma vezinha só, ao contrário de Naomi Cambell, que, como se sabe, nasceu e continua assombrando o pobre do bairro de Catumbi. Aqui, no Rio, como poderia escrever o poeta sobre Macau, nada de interessante ou sério aconteceu ou acontecerá.”

Assim, com um potente petardo Ivan desmerecia sem rodeios muitas das nossas idolatradas belezas. Era um sádico, ingrato, mal educado, canastrão? Não, era um sujeito franco que utilizava a inteligência como uma arma de destruição em massa. A nossa massa em particular.

Tinha o sentimento de tragédia e falta de esperança por nós. Povo sem respeito. Será que buscamos padrões de civilizações destroçadas pelas guerras civis e supervisão de caudilhos megalomaníacos?

A partida de Lessa nos deixa mais órfãos. Sem eles, somos criados, burros de carga, cegos ao volante, já que não existe mais ninguém para nos dizer o contrário.

Reuni abaixo algumas das célebres citações do jornalista

“Baiano não dá bandeira. Hasteia.”

“Amar é...Ser a primeira a reconhecer o corpo dele no Instituto Médico Legal.”

“A cada quinze anos, o Brasil se esquece o que aconteceu nos últimos quinze anos”

“Não a motivo algum para sentirmos a vontade no mundo. Os alienígenas somos nós”

“O brasileiro tem que ter os dois pés no chão, e as duas mãos também”

Leonardo Carvalho

terça-feira, 17 de abril de 2012

50 mil vezes Lobão


Há artistas devidamente escorraçados na mídia, que, de tanto criarem polêmicas, caem numa espécie de ostracismo e passam a viver em universos alternativos, o que acaba tornando-os cult. Não sei se João Luíz Woerdenbag Filho, popularmente conhecido como Lobão, se enquadra exatamente nesse perfil, porém, uma das figuras de conceitos mais anarquistas contra as gravadoras em nosso país,tem uma história ácida e elegante em seu livro 50 anos a mil, que quase dois anos depois do burburinho gerado em cima do livro resolvi destrinchá-lo.

Os levianas de plantão que me perdoem, não podem julgar o próprio pela relevância de um dos vídeos mais populares do artista no youtube (quase 300 mil visualizações), onde o público rechaçou a participação da banda do músico a base de garrafadas na noite do metal no Rock in Rio II. Lobão é muito mais que isso.

Num livro de quase 600 páginas, sendo que outras mil foram limadas antes da edição final, feita com o auxílio do jornalista Claudio Tognolli, o qual se encarregou de reunir os fatos publicados na mídia, legitimando assim o discurso do autor, Lobão conta a sua intensa história com a ajuda da memória de amigos célebres, como Cazuza, Evandro Mesquita, Lulu Santos, Julio Barroso, entre outros. Aliás, esse último, serve como abertura do livro, quando ele e Cazuza cheiraram cocaína no caixão durante o velório do amigo falecido, líder do grupo Gang 90 e as Absurdettes.

Os amigos presentes em fotos e em histórias que dão corpo à obra é outro coadjuvante, assim como as bandas pré-carreira solo: Vímana e Blitz, a quem Lobão diz ter batizado, por mais que o cantor Evandro Mesquita não confirme o fato.

Boa parte do livro também tem forte influência da família do músico, em especial a mãe, mulher liberal e quase ao mesmo tempo reacionária na criação dos filhos. Lobão não poupa detalhes dessa relação de amor e ódio que manteve com os pais, desenhando um mundo entre o absurdo e a ternura. A mãe de Lobão sem dúvida ganha destaque pelos acontecimentos surreais para uma época moralista de uma família aristocrata. É de se perder o fôlego em episódios quando ele, junto da irmã mais nova, provam maconha com consenso da mãe, o que acabou gerando a sua expulsão, com total ausência de delicadeza por parte do pai, de casa.

No livro, é fácil imaginar a voz de Lobão narrando os casos, por conta da opção de preservar “léxico e a sintaxe peculiares e autorais" do biografado, segundo nota do editor. Portanto, episódios como o de sua passagem pela cadeia, fuga do Brasil e guerra contra as gravadoras tomam uma vivacidade surpreendente.

Não é natural se aproximar de uma biografia de alguém que te remete mais ao caos que ao próprio trabalho. Contudo, 50 anos a mil tem muito mais que isso. A energia é contagiante vinda de um músico inteligente, criativo e, por vezes, perturbado e neurótico. Um livro necessário para quem aprecia música e história do rock nacional.

terça-feira, 20 de março de 2012

No fundo do Pornô


Tenho o costume de recomendar nessa coluna os mais diversos livros, os que me agradam, naturalmente, no entanto, neste mês vou fazer um bem bolado coma cultura pop (depende do seu ponto de vista) e fazer uma indicação dupla, que vai pegar todos seus amigos fãs de literatura e filmes do Goddard de surpresa. Trata-se do livro Pornô (2002), do escritor escocês Irvine Welsh, celébre por seu primeiro trabalho Trainspotting, o qual em 1996 virou filme nas mãos do premiado diretor Danny Boyle (Quem quer ser um milionário?) e alcançou o status de cult quase imediatamente entre grupos underground. A história, que não poupa polêmicas pelo abuso excessivo de drogas, prostituição e violência fala da vida de um grupo de jovens viciados em heroína, em Edimburgo, na Escócia. Num subúrbio, quatro jovens sem perspectivas mergulham no submundo para manter seu vício pela heroína. Pessoas que utilizam as mais diversas máscaras para manter o vício e marcham inexoravelmente para o fim das amizades e, simultaneamente, para a autodestruição.

Com o burburinho causado pelo livro e o filme, Welsh não perdeu a pegada de dar um novo rumo na vida desses jovens e continuou a história com dez anos mais tarde, quando quase todos personagens do primeiro livro sobrevivem e, milagrosamente assumem novas características em suas vidas pessoais. Naturalmente, figuras fadadas ao fracasso, crime e prostituição seguem seus instintos naturais num cenário gótico e úmido, o qual Welsh descreve muito bem. As histórias se desenrolam em atos na Escócia, Inglaterra e Holanda, aonde cada personagem vai se enquadrando em um objetivo comum: a pornografia.

Diferente do primeiro livro, Sick Boy é o protagonista da vez, deixando o ex-amigo e traidor Rents em segundo plano. A idéia agora, além de reaver o dinheiro roubado por Rents, é se afundar numa indústria de sexo amador com ambicioso profissionalismo movido pela perversão. As drogas não ficam de fora, mas Welsh dessa vez explora um novo tipo de violência, em que a sacanagem é apenas a porta de entrada para o submundo dos filmes pornôs.

O livro é denso, detalhista, provocante e perturbador em certos momentos, o que foi uma tarefa difícil, mas não impossível, para adaptá-la para o teatro. Desde o dia 09 de fevereiro, no Vegas Club, em São Paulo. Eduardo Ruiz apresenta a obra de Welsh. Coube ao diretor Gustavo Machado a tarefa de criar uma atmosfera independente do cinema para essa turma dez anos depois. Com elenco afinado, o espetáculo — lançado na balada Vegas e agora ambientado no Studio SP da Vila Madalena — tem vida própria. Entre carreiras de cocaína, Sick Boy (o ator Sérgio Guizé) cuida de um boteco. Spud (papel de Fábio Ock) se vê impotente diante do mundo. Franco (Guilherme Lopes), recém-saído da prisão, procura um rumo. Renton (Pablo Sgarbi) tenta outra vez se dar bem. Outras figuras se interligam ao quarteto na produção de um filme pornô. É imperdível para os fãs do filme e para quem não tem medo de observar a decadência do ser humano em estado avançado.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Intolerante Adorável


José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, faz jus à sua fama de diretor competente e inovador, realçando a qualidade de outros profissionais que ajudaram a transformar a Globo no que ela é hoje: líder absoluta de audiência no território nacional. Em um livro encantador, figuras como o lendário diretor Walter Clark, ex-aliado de Boni, são retratadas como pilares importantíssimos na construção do império de comunicação, deixando de lado as rixas pessoais que teriam levado à sua saída da Rede Globo em 1977. Aliás, gentileza é que não falta nas palavras do autor. Desde seus  braços direitos, como o diretor Daniel Filho;  Joe Wallach, o ex-representante do grupo americano Time-Life e então superintendente de Administração; Jose Ulisses Arce, superintendente de Comercialização; e Armando Nogueira, diretor de jornalismo. Além, é claro, de Roberto Marinho, mencionado sempre como "Dr. Roberto", o que dá um tom superior e quase de “mago” ao dono da empresa.

Quem espera pelas fofocas, se desencanta logo nas primeiras páginas, quando o próprio autor adverte que suas memórias são reflexões mais para a curiosidade sobre as empresas e pessoas com quem trabalhou do que a vida particular de figuras notórias da televisão brasileira. Isso, entretanto, não abala a estrutura de um livro muito bem escrito, rico em detalhes e fatos curiosos de um homem que deu enredo ao próprio destino, apostando em seu talento e ambição. Não é de se estranhar, que ele enfatize tanto um dos seus mantras: “Quem quer ser criativo, não pode ter medo de errar. Quem quer ser eficiente, não pode tolerar o erro.”

As quase quinhentas páginas do Livro do Boni são capítulo à parte para quem acompanhou o nascimento da televisão brasileira. Boni não poupa nuances a quem ele classifica de talentos indispensáveis para a consolidação da TV Globo como uma central de produção e não apenas transmissora de programas. Alguns deles, como Abelardo Barbosa, o Chacrinha, compartilha de passagens no limbo e no céu, por conta de seus caprichos excêntricos. Em um deles, em particular, Boni explica a quase tragédia quando Chacrinha, recém-contratado, havia criado um concurso do cão mais pulguento do brasil. O concurso, segundo o próprio apresentador, tinha um apelo de conquistar as classes mais baixas e popularizar o programa, algo que Chacrinha vinha fazendo com grande liberdade na TV Tupi. Acontece que, segundo Boni, o cachorro vencedor tinha aproximadamente sete mil pulgas (lamento, mas nem o autor explica como eles contaram as pulgas) e quase interditou os poucos estúdios da emissora, que ainda rodavam com recursos parcos de uma empresa que quase tinha chegado à falência em 1967.

Aliás, antes de se tonar um exemplo para as outras emissoras, a Rede Globo, amargou anos de aperto financeiro, quando mal tinha condições de pagar seus próprios artistas e funcionários. O salvador da pátria, novela que levaria anos ainda para ser produzida, foi Silvio Santos, que desembolsou os próprios recursos para ajudar a emissora que seria a pedra em seu sapato anos mais tarde.

O livro do Boni se desenrola com uma fluidez impressionante por essas e muitas outras histórias. O leitor fica preso a um texto leve narrado por um “intolerante adorável” que saiu da cidade de Osasco para se tornar um dos ícones da TV Brasileira.